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De Lisboa

Notas de um lisboeta, criado em Caxias e residente em Oeiras

De Lisboa

Notas de um lisboeta, criado em Caxias e residente em Oeiras

21.01.11

Outra visão


Tó Zé Rodrigues

 

Manuel Alegre no Coliseu dos Recreios, Lisboa, 20-01-2011:

 

"estou aqui também por uma outra visão da Europa que bem necessária é"

 

"Queremos uma Europa de cidadania, de democracia, de transparência, em que as decisões não sejam tomadas fora dos mecanismos institucionais contra as regras democráticas. Uma Europa de coesão e de solidariedade entre Estados iguais e soberanos, não uma Europa que se desloca para a concentração de poderes num centro muito poderoso, dirigido por um país muito poderoso contra os países periféricos. Não foi a essa Europa que nós aderimos.

 

Eu sou pela Europa e pelo velho sonho europeu, mas por uma Europa de transparência, de mais cidadania, de mais coesão, de mais solidariedade, de políticas de crescimento, de políticas de emprego. Não esta Europa onde a direita conservadora está a aproveitar para rasgar o pacto social e pôr em causa direitos sociais que custaram o sacrifício de gerações e gerações.

 

E nós temos uma palavra a dizer, uma palavra portuguesa, uma palavra crítica de Portugal. Como eu tenho dito por todo o lado, quando as naus portuguesas partiram para o mar desconhecido, nós criámos a primeira revolução cultural e científica que esteva na base do renascimento europeu. Fomos então Europa antes de Europa o ser. Não sei se o outro candidato sabe disso, ele que é tão bom aluno, tão bem comportado, tão obediente. Não somos europeus de segunda, somos europeus de primeira. E é preciso uma voz portuguesa, activa, uma voz que tem que ser uma voz também do Presidente da República, como foram no passado as vozes de Mário Soares e Jorge Sampaio. Uma voz livre, uma voz democrática, uma voz de Portugal. Não quero Portugal de joelhos, quero Portugal de pé – na economia, na política, na cultura."

 

"outra visão de Portugal"

 

"Restabelecer o primado da política, o poder político democrático a comandar a economia. Não os grandes interesses económicos a quererem capturar o poder político democrático que sai do voto popular, mas uma dimensão cultural da vida política. Não somos um grande país territorialmente, mas somos um grande país pela história, pela cultura, pela grande língua portuguesa. E temos que saber aproveitar essa riqueza que é o nosso capital principal. Porque ao contrário do que pensa o candidato que passa a vida a dar-nos lições de economia, uma nação não é só um manual ou uma sebenta de finanças. É a força da nossa língua. São os grandes livros que em português se escreveram, não só em Portugal, mas também no Brasil, em Angola e Moçambique e em Timor Leste. É Camões, é Fernando Pessoa, é Cecília de Meireles, é Carlos Drummond de Andrade, é o meu amigo Pepetela, é o Mia Couto. Mas também os nossos pintores, os nossos artistas, as nossas pedras, os nossos monumentos. É isso que é uma Pátria, é isso que é um país, é isso que é uma Nação. E é isso que um Presidente da República tem que saber projectar na Europa e no mundo."

 

do discurso da Campanha "Presidenciais 2011" ( ver discurso completo aqui )

 

Tó Zé

06.07.07

Rabih Abou-Kalil Group: Surpreendente


Tó Zé Rodrigues

O Rabih Abou-Kalil Group com os fadistas Ricardo Ribeiro  e Tânia Oleiro apresentaram ontem um espectáculo surpreendente, no Teatro São Luiz , em Lisboa.

 

Nas palavras de Ricardo Pais (coordenação do projecto) “(...) a sofisticação do canto destes nossos jovens artistas conduziu o músico libanês a um território que se autonomiza a olhos vistos e que passa a excluir a presença convencional do fado.”

 

Hoje haverá um novo espectáculo, no mesmo local às 21 horas, que os interessados não deverão perder.

 

A música é de Rabih Abou-Kalil   e as letras são de Jacinto Lucas Pires.

 

O grupo é composto por Rabih Abou-Kalil (alaúde árabe) , Jarrod Cagwin (percussão) , Luciano Biondini (acordeão), e Michel Godard (baixo, serpente, tuba).

17.05.07

Notícias de Lisboa


Tó Zé Rodrigues

De Santos à Lapa, percurso matinal, em passo de corrida, com regresso calmo à tarde.

In itinere assim é definido na lei laboral o percurso diário que faço para o (e do) local de trabalho.

Em passeio digo eu, em sentido figurado e em sentido estrito.

Sim,  porque o faço com gosto, apesar da habitual aceleração das manhãs, que bem podia evitar, e na sua maior extensão pelo passeio, pois por força das disposições urbanísticas tomadas, neste meu caminho o espaço dos peões é respeitado. Já nem tanto assim o é o seu tempo e o seu ritmo, nos atravessamentos das vias, mas enfim vamos aguardar.

De facto há cerca de seis anos que estou a trabalhar na Lapa, em Lisboa, e troquei a viatura particular pelo comboio da CP que me deixa na estação de Santos, junto à Av 24 de Julho.

Aqui sim um pequeno desafio: atravessar três faixas de rodagem (com dez vias de trânsito no total) separadas por dois passeios em pouco mais de 15 segundos; o tempo que os semáforos estão abertos para os peões.

Depois é a eventual paragem no quiosque dos jornais e revistas, do outro lado da avenida, "o jornal se faz favor"; ao cima da Calçada Ribeiro Santos, na rua de Santos-o-Velho, paragem quase obrigatória  para tomar um café e um bolo, "Um euro e vinte e cinco. Obrigado."; depois é enfrentar a primeira dificuldade a sério, a ingreme rua de S.João da Mata, a seguir a Garcia de Orta sempre a subir, e finalmente a rua de S.Domingos.

Chegado ao destino a magia acontece, todos os dias, excepto talvez naqueles dias de dilúvio, em que a água desaba sobre a terra e não deixa ver nada.

Por vezes é um pouco como a sensação que temos quando no meio de uma paisagem árida e abrasadora ao contornar um obstáculo rochoso encontramos um oásis cheio de sombra, água e vida.

De facto, ao transitar da rua para o meu local de trabalho tenho que atravessar um edifício, que deixo para trás, e entro num grande jardim, relvado, com pequenos lagos e fontes, árvores frondosas de diferentes dimensões, flores e arbustos. Há o canto de pássaros, cores e cheiros que nos transportam instantâneamente para um outro espaço dentro do mesmo bairro, dentro da mesma cidade.

Ao fim do dia é todo um jogo de luzes que muda, e que vai variando conforme as estações do ano; quer no jardim, quer na iluminação das fachadas dos prédios ao longo de todo o percurso de regresso a casa.

Também a disponibilidade de espírito é outra, e o tempo para apreciar alguns detalhes pelo caminho.

Hoje parei no Alfarrabista, na Garcia de Orta. Há vários dias que mudava de passeio para evitar de o fazer. O anuncio na montra era tentador : 2 livros 1 euro.

Fujo cada vez mais destas promoções.

Primeiro: a minha casa não é nehuma biblioteca nem tenho espaço ilimitado para livros!

Segundo: tenho um velho princípio, agora nem sempre seguido muito à risca, de que só compro livros que pretendo ler, e se já tenho vários pendentes para ler não compro mais enquanto não  tiver lido esses.

Mas lá fui bisbilhotar, assim como quem não quer a coisa, e acabei por perder o amor a dois euros, e vim todo contente e curioso com quatro livros, sendo três edições de bolso, das quais duas em lingua francesa (para treinar um pouco o meu francês).

Dos seus autores, três  há que confesso não ter ainda lido nenhuma obra: Goethe, Mauriac e Sarney; e um quarto de que já tive oportunidade de ler algumas: Sartre.

O resto do caminho já vim um pouco perdido, entre alguns diálogos do nordeste do Brasil (Sarney), enquanto ainda descia a rua para a estação do comboio, algumas passagens de  " La Mort dans l'Ame" (Sarte), enquanto aguardava de pé o comboio na estação de Santos,  e a descrição de uma "doce manhã de Primavera",  no Werther de Goethe, já no comboio para Oeiras, alheio à vista do Tejo mesmo ali à beira.

Foi assim de tal forma que quando dei por mim tinha atingido o end of line e informei um grupo de turistas alemães que seguiam junto de mim que deviam mudar de comboio se desejavam continuar na direcção de Cascais.

12.02.07

SIM. E agora?


Tó Zé Rodrigues

Não restam dúvidas que venceu o SIM, no Referendo de ontem, por expressiva maioria.

Está também claro que dada a elevada abstenção, apesar do aumento de eleitores que acorreu às urnas ter sido superior a  1 milhão, comparativamente ao Referendo de há oito anos sobre o mesmo tema, este também, por si só, não será legalmente vinculativo.

Mas à questão se as mulheres deveriam deixar de ser penalizadas pela prática da interrupção voluntária da gravidez a seu pedido  até às 10 semanas de gravidez realizada em estabelecimento autorizado para a prática de actos médicos, a resposta foi SIM.

E como foi prévia e amplamente divulgado pela maioria política no poder, a decisão manifestada no Referendo terá consequências.

A primeira será o processo legal que conduzirá a DESPENALIZAÇÃO efectiva nos termos referidos.

Há porém que realçar a importância, a profundidade, e a mobilização para o debate que a campanha prévia ao Referendo suscitou.

Os temas levantados, e o envolvimento efectivo das pessoas,  organizações, instituições e partidos políticos, creio, projectam para a sociedade portuguesa a oportunidade de vir a tratar de uma forma mais profunda e ao mesmo tempo mais abrangente, um tema que não se circunscreve à esfera legal, penal, mas é também uma questão de vida, de cultura, de sociedade, de ética e de religião, embora a decisão de cada caso se faça normalmente na esfera individual, quantas vezes em situações dramáticas, de ansiedade e de solidão ou desamparo.

Creio que sendo a DESPENALIZAÇÃO aquilo que decorre politicamente da vontade manifestada nas urnas, o desafio maior para a sociedade será a promoção de uma vida melhor para os portugueses, onde as mulheres possam planear uma maternidade feliz e responsável com o apoio de homens que saibam estar à altura das suas responsabilidades.

Para esse desafio devem sentir-se todos convocados: os que acorreram às urnas tanto quanto os que ficaram em casa.

Não será trabalho para um dia, mas em cada novo dia podemos perguntar-nos:

"O que posso eu fazer para ajudar ? "

Bom dia

11.02.07

Afluência às urnas


Tó Zé Rodrigues



Esta é uma imagem da afluência às urnas no tempo do meu avô, José Rodrigues
(a meio da foto, pequeno bigode preto, gravata sobre a boca da urna).

Não tenho informação da data mas creio que seja  posterior a 1928, isto é já com o  Estado Novo.

Desde então muita coisa mudou:

- há liberdade de expressão de pensamento,
- as mulheres têm direito ao voto,
- há liberdades, direitos e garantias expressas na lei, e salvaguardadas na práctica,
- está em vigor, há mais de trinta anos, uma Constituição da República democrática.

Hoje é dia de votação em Referendo.

Oportunidade para mudar a lei ou para confirmar a sua manutenção tal como está.

Oportunidade para mudar a experiência de participação dos cidadãos na decisão da sua vida pessoal e colectiva.

Espero que a afluência às urnas neste terceiro referendo, pelo menos, seja já por si um sinal forte de mudança e de participação, sendo o papel das mulheres e dos jovens muito importante, hoje e sempre.

Acredito na mudança, contra o imobilismo e o dogmatismo, porque a sociedade evolui e muda, ao contrário da vontade de alguns ,  tal como a Terra, "E pur si muove!" .


31.12.06

Na metade


Tó Zé Rodrigues

Entre a vida vivida e a vida por viver; a experiência ou o saber, e a esperança ou o "a haver".

No virar de página de mais um ano fico com a sensação que Tudo que faço ou medito fica sempre na metade .

Haja vida, não morra a esperança, e continuemos a virar páginas, aprendendo com novas experiências, revendo e amadurecendo o nosso saber, tranquilamente, sempre.

03.12.06

Autógrafo


Tó Zé Rodrigues

Lisboa, 9 de Junho de 1983.
Um mar de gente. Deixo-me levar pela corrente. À força, ou aos “com licença”, chego junto dos pavilhões da Feira do Livro.
Em todos eles me perco, nalguns me reencontro. Títulos há muito conhecidos mas nunca lidos lá estão à minha espera. Antigos preços, inacessíveis quando apenas estudava e tinha “orçamento zero”, estão agora ao meu alcance e ainda com grandes descontos.
Há que escolher, ponderar interesses e decidir: poesia, música, autores portugueses, outros de língua portuguesa, mas ainda livros técnicos, novos conhecimentos ou actualização ...

Para alguns está tudo nos livros.

A custo, mas com satisfação, percorro as temporárias avenidas, desenhadas pelos pavilhões dos editores e livreiros nas duas alas laterais do Parque Eduardo VII .
É noite, o Verão faz-se anunciar, e uma agradável aragem mexe com as árvores e as gentes.
As luzes dos pavilhões iluminam a noite e espevitam a nossa curiosidade .
Os empregados, atrás das bancadas, desdobram-se em actividade e atenções: informação e esclarecimentos, um título que não se encontra nas livrarias, um catálogo se faz favor, quanto custa, quero levar estes dois, ...
Os visitantes perdem a timidez habitual, frequente ainda dentro das livrarias, e parece que estão na mercearia: pegam, viram, abrem, cheiram, perguntam se é bom, se é aconselhável para certos efeitos.
No pavilhão da Associação Portuguesa de Escritores uma mole de gente. Aí estava o autor laureado com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação do ano anterior.
Pilhas de livros com o título premiado, que era comprado pelos admiradores que depois, em bicha, aguardavam a oportunidade para cumprimentarem o autor e pedirem o seu autógrafo.
Obra de sucesso, lançada há oito meses já ia na 6ª edição (35º milhar)!
O autor, nome conhecido e respeitado, como escritor e como cidadão, antes e depois do “25 de Abril” , era também familiar de um antigo amigo meu que tanto me tinha falado das suas qualidades. Era no entanto, e apesar de tudo, uma pessoa e um escritor tão desconhecido para mim como a sua obra.
Decido-me pela compra e tomo lugar na bicha para os autógrafos. Na confusão alguma ordem e lá me vou aproximando lentamente.
Apercebo-me que antes de assinar o escritor conversa um pouco com os seus leitores. Não oiço o que dizem mas o tom parece amistoso.
Começo a ficar apreensivo. O que falar? De que falar? A minha ignorância do seu trabalho e dos seus interesses actuais por um lado, e a minha falta de à-vontade para estabelecer conversação com desconhecidos por outro causam-me alguma ansiedade.
Olho à volta. Não me parece que abandonar a bicha e retirar-me furtivamente com o livro debaixo do braço seja solução.
À minha frente apenas um leitor, e o diálogo torna-se compreensível:
Autor – O que ponho?
Leitor – Viva o 25 de Abril !
Um sorriso do escritor e uma escrita rápida e firme.
O leitor agradece e deixa-me perante o gigante das letras:
Autor – O que ponho?
Eu - ... não sei ...
Um autógrafo preciso e vertical desenha-se rápidamente na segunda folha do livro, sob o nome tipografado do autor, e por baixo a data do dia, 9 de Junho 83, ao mesmo tempo que um profundo
- Óh ! ...
ecôa nos meus ouvidos.
P.S. : obrigado José ! Pela obra, pelo exemplo, e claro pelo autógrafo!

26.11.06

A Vida


Tó Zé Rodrigues

Life is a lie , a vida é uma mentira, é o título de um texto recente que me impressionou, de uma jovem que como eu começa a escrever neste espaço público, e como eu fiz, há cerca de trinta anos,  manifesta a sua revolta contra aquilo que vê e não aceita, e porventura não compreende.

Eu pelo menos não compreendia, mas hoje esforço-me por compreender, o que não quer dizer que aceite.

Depois de ter enfrentado a morte, na primeira pessoa, e das pessoas que mais amava, bem como situações de doença grave pessoais e de familiares e amigos, gostaria de lhe transmitir uma mensagem de confiança e tranquilidade, como diria um simpático treinador de futebol agora mimoseado pelos nossos humoristas, e de lhe garantir que a vida é um mistério maravilhoso que vale a pena ser vivido, dia a dia.

A acção cívica e politica pode ser muito motivante e é da maior importância para a melhoria da sociedade e do mundo em que vivemos. A compreensão das condições e das regras do seu desenvolvimento são fundamentais.

Essa intervenção não dispensa o estudo que por si só não permite a resolução dos problemas, os quais só a acção prática poderá promover.

A discussão desta temática é desenvolvida num artigo de Guilherme d’Oliveira Martins (Advogado, Presidente do Centro Nacional de Cultura) in Desafios à Igreja de Bento XVI, Casa das Letras/Editorial Notícias, 1ª Edição Novembro de 2005, sob o título A César o que é de César.

Nele, a promoção de Valores Ético-Politicos define a "política, no sentido de domínio da imperfeição, mas, simultaneamente, como domínio paradoxal da exigência e da justiça. “ .

O mundo não é nosso. É apenas um lugar por onde passamos. É importante que os jovens possam aprender  qual o papel que podem ter na sua transformação, fazendo e errando, estudando e aprendendo, e assim sucessivamente, com os mais velhos, e com os mais novos, que entretanto o tempo foi passando...